briefing sujeito oculto

Briefing, você me faz sofrer

Você é o redator e fica todo satisfeito quando consegue produzir um texto realmente bom dentro de um briefing difícil — até que o cliente devolve e diz que está muito ruim.

 

Em um trabalho terminado recentemente, o briefing foi um personagem importante.

O trabalho era escrever textos sobre lugares interessantes, a serem publicados em português, inglês e espanhol em site graduado.

Além de uma dificuldade inicial, que é escrever pensando no tradutor, outro ponto de atenção foi mencionado pela agência que nos contratou.

Briefing, sujeito oculto

A pedido do cliente, os textos seriam no estilo BuzzFeed. Explico já.

O meu trabalho seria escrever de maneira atraente e criativa, seguindo o estilo adotado pelo site BuzzFeed, que mistura clickbait e informalidade de uma forma legal quando bem feita. Ok. Há controvérsias, clique e veja você mesmo.

— Você pode gostar ou não deste jeito de escrever, mas o que importa é que seja feito assim, ok?

Tudo bem, muitos são os desafios no caminho do redator (ele pensa assim: vou escrever em estilo bem longe do meu… será que vou conseguir ou vai soar falso?).

Post do site BuzzFeed seguem estilo e faixas de público

O estilo BuzzFeed – o briefing considera este tipo de post como inspiração — claro que apoiado por conteúdo mais profundo

O trabalho dele é descrever com naturalidade lugares que não conhece, como se estivesse falando para um amigo, com descontração e inteligência até que o amigo contagiado fique também com a maior vontade de ir até lá.

Como se faz isso? Pesquisa. Basicamente você deve fazer leituras sobre o assunto por um bom tempo, até acumular conhecimento a partir de um consenso existente e até que se forme um entendimento consistente do quadro.

O redator do futuro vai usar inteligência artificial para acelerar este processo, que consome tempo e não tem como ser evitado.

E, como nos filmes de ficção científica, você complementa com as suas próprias lembranças e sensações reais de lugares semelhantes e as transfere ao texto pela escolha das palavras.

O segundo passo é contar a história de maneira envolvente, com frases mais curtas e freadas aqui e ali para sacudir o leitor e manter acesso o interesse.

Dito isso e algum tempo depois, os textos ficaram prontos e o resultado ficou bom. Enviei os textos com orgulho, que foram sendo aprovados pelo cliente.

Só faltava um. Aquele que mais gostei, leve e evocativo de imagens e sensações que o leitor aceita sem pensar. Aquele que mostrei para outras pessoas, que gostaram bastante e disseram: — Quero ir lá!

Fiquei contente com o resultado. Consegui escrever de um jeito que não é o meu, seguindo o modelo solicitado pelo cliente, estilo no qual me sinto pouco confortável.

. . .

Mas que nada.

— Eles detestaram, disse o atendimento.

— Como assim, você também achou que estava bom…

Aconteceu que as pessoas no cliente leram e não curtiram muito. Daí pediram a opinião de especialista lá dentro que entrou metendo o pau. Disse que a escrita era ruim, que as frases cortadas só faziam sentido na cabeça do autor (no caso eu). Mas anexou algumas orientações como subsídio.

Muita calma nessa hora.

É neste momento que você duvida se serve mesmo para o ofício de escritor de aluguel.

Você coloca a alma, se supera e faz o que foi pedido perfeitamente. Só que os aprovadores decidiram naquele momento usar outra abordagem, outro tom. Acredito que escolheram atender um público interno, mais técnico e formal.

O novo texto foi aprovado, perdeu graça mas ganhou mais informações e referências.

Foi o caso de um briefing chutado para escanteio. Não tiro a razão.

O que se pode fazer neste caso? O redator fica pensativo e triste. Poderia ter perdido muito menos tempo se tivesse recebido o verdadeiro briefing antes, evitando sofrimento.

O atendimento deve ponderar com o cliente, se possível.

Meu palpite: errado nessa história é quem decidiu seguir este modelo obrigatoriamente. O estilo BuzzFeed não cabe muito bem no projeto, a menos que seja seguido assim bem de longe. Por mais vantagens que se encontre, nem sempre este jeitinho se aplica.

E você, o que acha?

Outrolado_

 

 

 

O outro lado do avesso

 

 

Quero abrir um site mas não sei se devo

 

 

A minha empresa não tem manual de redação

 

 

Como usar a letra maiúscula

 

Vicente Tardin é editor, jornalista, gestor de conteúdo e consultor para projetos online. Foi o criador dos sites WebWorld (1997) e Webinsider (2000).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *