O teu IP não nega, mulata

Inicialmente um trabalho de graduação sobre Sérgio Buarque de Holanda, este artigo fala sobre alguns comportamentos do brasileiro online. Usando alguns exemplos recentes e algumas máximas do autor, o trabalho tenta mostrar que o tal "orgulho de ser brasileiro" tem os seus limites quando se trata de Internet. Interessante para se pensar nos reflexos dessa idéia em marketing e gestão de produtos online no Brasil.

 
20/02/2007 18:41
Por 
Romulo Marques
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O Brasil é corno. Todos somos maridos e esposas infiéis. Dormimos, amamos e consumimos essa terra, mas, secretamente, sonhamos com nossas amantes. Essas concubinas míticas são, na verdade, qualquer outro lugar que não aqui. Deixamos-nos seduzir pela idéia de que não pertencemos a este lugar. Pertenceríamos, em verdade, a uma outra realidade quase imaginária. Parece que estamos neste país por um mero - e infeliz - acaso.

Sérgio Buarque de Holanda trata disso logo nas primeiras linhas de seu ensaio Raízes do Brasil. “Somos desterrados em nossa própria terra”, diz ele. Herdamos o inquieto espírito Ibérico. Tal espírito pode ser definido pela exacerbada individualidade, o gosto pelo sucesso e a admiração pela iniciativa pessoal. O herói ibérico é o que não apenas vem, vê e vence, mas também volta trazendo a glória. No fim é tudo que queremos: voltar. Até lá, cuidamos exclusivamente de nossas vidas.

Há várias gerações alimentamos isso. O amor pela estrutura de privilégios familiares aparece em todas as camadas sociais. Desde a fraternidade formada nos subúrbios até o mais alto nepotismo e favorecimento praticado pelas elites. Somos todos conhecidos, sobrinhos, afilhados e amigos de infância de alguém que nos garantirá aquele lugar privilegiado na fila do banco ou na área VIP de um show caríssimo.

Ainda sobre heranças, existem aquelas que rejeitamos. Arrogamos certo livre-arbítrio de escolher a quem vamos amar. Consideramos mais lógico proteger estruturas menores, mais próximas e íntimas. Cuja retribuição pelos “serviços prestados” é mais imediata e aparente. Estado? Este não cuida de nós. É apenas uma das heranças indesejadas. A parte irônica é que o importamos de fora. Justamente dos lugares de onde viemos e ansiamos voltar. A lei, a comunidade e o amor pela terra acima do amor pelas pessoas são belos, devem funcionar muito bem no paraíso platônico que almejamos. Mas não funcionam nessa terra transitória onde estamos assentados. Ainda mais irônico é que o Estado pensa exatamente da mesma forma e nos trata de acordo. Nada mais justo que ele seja distante, nós não pertencemos a ele e vice-versa. Estranho é tentar entender que, ainda assim, o Estado somos nós.

Talvez essa auto-rejeição seja um de nossos diferenciais no mundo. O brasileiro gosta de ser visto como brasileiro, mas não como habitante do Brasil. O peso e a atualidade da tese de Sérgio Buarque de Holanda é tal que podemos usá-la para entender alguns comportamentos brasileiros em um dos cenários mais contemporâneos que temos: a Internet.

Os “Fotologs” e os “Orkuts” da vida se consagraram como as ferramentas preferidas pelo público brasileiro na Internet. A possibilidade de ter um espaço para a auto-exposição e criar redes de afinidade baseadas na própria imagem fascinam essa “alma ibérica” dos brasileiros. O Brasil é potência nessas ferramentas, sempre figurando como maioria de usuários. Porém, esses números são falsos. Nessas ferramentas, o Brasil é ainda maior do que as estatísticas mostram.

Para que se conte como brasileiro nesses serviços online, é necessário dizer que é brasileiro. Normalmente, durante o preenchimento do cadastro de adesão, existe um campo “país”. Nesse campo há um seletor com todos os países do mundo e você pode escolher a vontade. É uma tentação sem igual para o brasileiro que, quase inconscientemente, não se situa como parte desta terra. Some isso ao campo livre (com possível entrada de qualquer texto) para dar o nome da cidade em que o usuário vive e pronto: temos um terreno fértil para a jocosidade que só o brasileiro consegue ter com sua terra natal. Alguns projetam seus sonhos e se afirmam como representantes virtuais legítimos de outra nação. Outros fazem apenas alguma piada e já se sentem gratificados com isso. Cidadãos de outras nações com certeza fazem o mesmo, mas não com tamanha freqüência.

Seria interessante uma outra análise estatística dessas ferramentas. Ao invés de usarmos a palavra dos usuários como parâmetro, poderíamos usar um outro recurso: o IP (Internet Protocol). Esse protocolo é um endereço numérico único para cada ponto de conexão à internet. O padrão usado para a criação dos IPs deixa claro de que país o usuário está acessando a Internet. Tal análise geraria números diferentes dos obtidos usando unicamente os cadastros. Recentemente o Fotolog reformulou o seu sistema para tentar minimizar essas discrepâncias. Exigindo um cadastro mais apurado da nacionalidade do usuário, provavelmente tentando entender melhor o seu público e otimizar sua receita em publicidade. Mesmo contando com os desvios – como, por exemplo, um acesso oriundo de uma filial multinacional usando o IP da matriz – com certeza esse estudo revelaria que o Brasil é maior do que se pensa nessas ferramentas.

O problema é que temos dificuldade de assumir o nome dessa companheira chamada Brasil. De frente para alguns cadastros na Internet, cheios de opções deliciosas, olhamos para um lado e depois para o outro, retiramos do dedo uma aliança metafórica e homenageamos, sem crise de consciência, aquelas que realmente desejamos. Dificultando a descoberta de quantos e quem somos, afinal, nesse tal “mundo virtual”.

Nas Seções: Negócios , Propaganda e MKT , Web etc
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Rodolfo Arruda
Belo artigo. Já faz algum tempo que venho tentando fazer algo parecido de analisar o que seria o distintivo da cultura nacional na internet, mas até então não tinha me passado pela cabeça a idéia de utilizar Sérgio Buaque. Creio que vc abriu um ótimo caminho de investigação, agora é só continuar...
2007-02-21 04:22:41.

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