A função do upmixing nos receivers e processadores atuais

A função do upmixing nos receivers e processadores atuais

Recursos de redistribuição de canais surround para os canais 3D superiores são conseguidos com a ajuda dos “upmixers”, inclusos como parte dos codecs originais. O seu uso melhora substancialmente a reprodução do áudio multicanal 2D, criando um ambiente nunca antes obtido, mas este uso não é compulsório, usa quem quer!

 

Todos os codecs 3D para áudio multicanal, introduzidos anos atrás no ambiente doméstico, foram suplementados com recursos de modificação de mixagem, de maneira a tirar vantagem dos canais 3D instalados no sistema do usuário.

 

Codecs 3D para áudio multicanal foram suplementados com recursos de modificação de mixagem, de maneira a tirar vantagem dos canais 3D instalados no sistema do usuário

 

O Auro-3D introduziu o Auro-Matic, capaz de converter fontes de áudio convencionais para a emulação do novo formato:

 

O Auro-3D introduziu o Auro-Matic, capaz de converter fontes de áudio convencionais para a emulação do novo formato

 

Seguindo este mesmo princípio, o Dolby Atmos foi acompanhado do Dolby Surround, com o mesmo efeito, e finalmente o DTS:X implementou o DTS Neural:X como complemento do seu codec.

A redistribuição de sinal leva o nome de “upmixing”, que consiste na remixagem da fonte de áudio, de acordo com o número de caixas acústicas instaladas, e de tal maneira que parte do conteúdo passa a ser reproduzido pelas caixas dedicadas à distribuição de som 3D na parte superior da sala.

Benefícios e resultados práticos do upmixing

A ideia da remixagem é brilhante, porque ela se propõe a aproveitar o material de áudio antigo e tirar dele as informações (tecnicamente chamadas de “cues”) que têm potencial para a redistribuição nos canais 3D.

Através deste recurso, um monte de efeitos sono plásticos, a maioria de caráter difuso, ou seja, sem localização espacial definida, são passíveis de contribuir para o aumento da ambiência. Um exemplo de um efeito deste tipo é o barulho típico de chuvas e trovoadas, constantemente mixado em trilhas sonoras de filmes de suspense ou terror.

Ninguém divulgou, até onde eu tenha tomado conhecimento, de como o processo de remixagem funciona. Nas antigas trilhas Dolby Stereo o processador Dolby ProLogic retirava dinamicamente, através de um processador adequado, sons fora de fase que eram automaticamente distribuídos nas caixas surround. Os novos “upmixers” fazem algo semelhante, porém com o uso de múltiplos canais.

Dependendo da mixagem da trilha sonora 2D contida no programa de áudio, o resultado costuma ser exemplar. Filmes como “Lucy”, dirigido por Luc Besson, se beneficiam imensamente da remixagem. Lucy foi lançado com uma trilha Dolby Atmos somente em discos produzidos na China e arredores.

A versão americana e a nossa estão transcritas em DTS HD MA 5.1, mas uma vez reproduzidos com DTS Neural:X toda a ambiência da parte superior da sala é observada. Se a reprodução é igual à da trilha do disco com Dolby Atmos só fazendo uma comparação A/B, mas de uma forma geral o resultado é tão bom que desanima o esforço de importar.

Mudanças na mixagem não são obrigatórias, usa quem quiser. Por outro lado, uma série de combinações podem ser feitas, que independem do codec utilizado, como por exemplo, de uma fonte de sinal PCM 5.1 de um filme pode-se ajustar a reprodução para PCM 5.1 + Dolby Surround, e funciona muito bem.

Nas minhas observações ao longo desses anos, fontes de sinal Dolby são melhor servidas com o ajuste para Dolby Surround. Da mesma forma, fontes DTS soam melhor com DTS X:Neural. Tudo isso faz sentido, porque o decodificador é previamente ajustado para o codec fonte, portanto nada mais racional do que complementá-lo com o codec suplementar da mesma fonte.

Outra coisa que a mim impressionou muitíssimo foi constatar que filmes que tradicionalmente são dotados de excelente trabalho de mixagem soam ainda melhor com o uso de upmixers.

Jurassic Park

Uma trilha conceituada deste tipo é a do filme Jurassic Park, de 1993. Eu tive a chance de reproduzir esta trilha no passado com o uso do surround criado por um circuito Hafler (passivo), e anos depois com o uso de um decodificador Dolby Digital.

Em ambas as montagens o filme soava muito bem. Entretanto, a contribuição de ambiência com o upmixer supera muito os belíssimos efeitos sono plásticos criados por Gary Rydstrom e pela equipe que trabalhou no filme, particularmente aquele produzido para o rugido do T. Rex, uma mistura elegante de sons graves e agudos, que se espalham por todo o surround.

Como eu já passei por vários tipos de montagem, eu acredito que melhores resultados são obtidos com o máximo de canais instalados no sistema. Na minha atual configuração eu uso 7.1.4, a saber, 7.1 canais para os canais da base e mais 4 canais para o som 3D, perfazendo um total de 11 canais e mais o subwoofer. Deste modo, eu consegui “ressuscitar” trilhas antigas, com resultados que, ouso dizer, poderiam até impressionar o mais exigente dos audiófilos ortodoxos.

O meu sistema permite a instalação do codec Auro-3D, mantendo, por coincidência, o mesmo layout de caixas acústicas. Como este melhoramento custa relativamente caro, e principalmente como o material para este codec é escasso até na América, eu achei por bem descarta-lo até segunda ordem. Entretanto, em trilhas Auro-3D com DTS HD MA como codec base é possível se conseguir uma emulação bastante razoável ajustando a saída para DTS HD + DTS:Neural X.

Quem tiver interesse em fazer este teste eu sugiro baixar um clipe nesta página. Basta clicar na tela do clipe para baixar o arquivo no formato MKV.

Bem, seja lá qual for o codec usado, bons resultados podem ser observados na ambiência obtida. E como normalmente quem assiste filmes constantemente a partir de um certo momento deixa de prestar atenção na trilha sonora, o benefício do upmixer pode até ser ajustado e a modificação esquecida permanentemente.

Pelo menos no meu sistema o ajuste Dolby + Dolby Surround e DTS + Neural:X já é feito automaticamente (ajuste padrão) segundo a trilha base, portanto facilitando o ajuste final para o consumidor.

Inicialmente, o Neural:X foi lançado com problemas sérios de fasamento, mas algum tempo depois atualizado corrigido.

É importante mencionar que no período 2D (previamente à introdução dos novos formatos 3D) as trilhas que melhor se ajustaram à reprodução do surround foram aquelas formatadas para 6.1 canais, tais como o Dolby Digital Surround EX e o DTS ES Discreto e Matricial. Nunca mais vi o Dolby EX em DVDs, mas trilhas DTS HD MA em formato 6.1 estão até hoje inseridas em vários discos Blu-Ray, adaptadas dos seus originais DTS ES.

O aumento de canais surround é prerrogativa do usuário final. Como o “upmixer” é um recurso do tipo usa quem quer, a sua presença nos decodificadores nunca irá causar prejuízo algum para o usuário final.   Outrolado_

 

 

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

2 comentários sobre “A função do upmixing nos receivers e processadores atuais

  1. Olá Paulo esta matéria oferece a todos nós uma retrospectiva da evolução dos sistemas de som mutiprocessados, que tiveram início no começo do padrão Dolby Stereo, passando pelo DTS e outros que não sobreviveram. Acho que houve uma extrema evolução tecnológica desses sistemas, mas que nossos bolsos não tiveram poder de acompanhar. O único sistema (ao meu ver) que não vingou derivado do Dolby, foi na reprodução de música normal gravada em estéreo, que muitas pessoas tentavam melhorar a percepção forçando uma audição em Dolby Prologic, e demais efeitos oriundos desse sistema. Acho que somente a execução “específica de música em sala de concerto ou estúdio”, com a captação dos microfones devidamente posicionados para um sistema 5.1 ou 7.1, teriam uma boa resposta de audição e persepção sonora em som multicanais. Já em relação ao Dolby Atmos presentes nas TV mais novas, pela minha percepção essa novidade não trouxe aprimoramentos detectáveis pelo menos aos meus ouvidos, mas acredito que não partilhe dessa mesma opinião Paulo.

    • Sim, Rogério, concordo, o Dolby Atmos nas barras das TVs é inconvincente, e neste ponto lembro do Tom Holman quando afirmava que quanto mais caixas acústicas melhor. Na época, não foi aceito, as ofertas desse tipo eram poucas e muito caras. Com o advento do som 3D o número de caixas em maior número dá um resultado significativamente melhor, portanto o nosso Tom tinha razão. Concordo também que a captação de som em formatos multicanal é fundamental, aliás, em qualquer formato.

      Obrigado pela leitura.

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