60 anos de bossa nova: Atrid e João Gilberto

60 anos da Bossa Nova

A exposição comemorativa dos 60 anos da Bossa Nova, realizada no Rio de Janeiro, traça uma linha de tempo do movimento e merece a visita de cariocas e turistas.

 

Como no aniversário de 50 anos, a Bossa Nova completou mais uma década de sua origem arbitrariamente posicionada com o lançamento de “Chega de Saudade”, em agosto de 1958, pela Odeon. E para comemorar mais este aniversário o jornalista e scholar de música popular brasileira Tarik de Souza uniu seus esforços como curador aos de Valeria Machado Colela, que idealizou a mostra, realizada no edifício do BNDES, Rio de Janeiro, com o título “Bossa 60, Passo e Compasso”.

A exposição começou ontem, dia 18/07/2018, e se estende até 6/09/2018, portanto com larga chance de acesso para os potenciais visitantes. Para quem vem de fora e não conhece o centro do Rio de Janeiro, basta pegar o Metrô linha 1, e saltar na estação do Largo da Carioca. O prédio do BNDES fica próximo, fácil de achar pelo visitante.

Eu fui, por coincidência, logo no primeiro dia da exposição. No salão da exposição, uma série de painéis, redigidos pelo jornalista Tarik de Souza, fazem uma retrospectiva do movimento, com uma linha de tempo muito bem arquitetada.

Na parte central deste recinto foram instalados sistemas de som individuais, bastando que o visitante se sente em um banco ou poltrona, para ouvir a música que está tocando. Em pelo menos um destes locais, o grave da gravação é transmitido pelo assoalho onde a poltrona fica, um recurso muito bem bolado.

O tema “Bossa Nova” se tornou recorrente em várias das minhas antigas colunas, como aquela que comenta sobre a ausência de remasterizações importantes, na época somente importadas do Japão, e agora nem isso. Desnecessário dizer que a Bossa Nova é cultuada no Japão até hoje, daí a disponibilidade de ter se conseguido vários discos, originalmente masterizados nas respectivas fontes, via Universal Music Group (UMG), proprietária do acervo Polygram.

Eu achei a exposição oportuna, para que a memória de um movimento que foi essencialmente carioca nunca seja esquecida na cidade onde ele foi criado. Para as pessoas da minha geração a divulgação fonográfica durante a década de 1960 foi um importante veículo que permitiu que todos nós tomássemos conhecimento do movimento e ao mesmo tempo saber que rumos ele iria tomar.

Eu sou um daqueles que, estando ainda no início da adolescência, não poderia frequentar os clubes noturnos onde a música era tocada, mesmo que quisesse! Então, o caminho para saber o que estava acontecendo era a divulgação fonográfica ou shows de TV.

Mas, por mera coincidência, eu nasci no bairro da Tijuca, que era um ambiente musical que se espalhava pelas ruas do bairro, e por isso a Bossa Nova era também tocada pelos estudantes e aficionados, durante grande parte da década de 1960. Até hoje, eu me considero um fã sem cultura musical específica, mas com grande afeto pelo trabalho desencadeado na década de 60.

A linha de tempo em painéis

O visitante encontra, logo ao entrar, uma série de painéis que cobrem a linha de tempo do ambiente na década de 1950, e o aparecimento subsequente da Bossa Nova. Na sequência desses painéis, entre os que são encontrados mais à frente, é possível ter uma noção razoável de quando e como a música surgiu, bem como as diversas tendências que provavelmente serviram de base para o surgimento da Bossa Nova.

Durante o final da década de 1950 a Bossa Nova já havia encontrado o seu rumo. O jeito de cantar baixinho e com lentidão romântica era estilo de cantores da noite. E é um jeito proeminente de cantores populares daquela época, como foi o caso de Mário Reis, outro habitante dos arredores da Tijuca.

Eu por acaso sou primo postiço do cantor e compositor Tito Madi, casado com uma prima já falecida, e o Tito, citado em dos painéis como precursor, me disse um dia que a turma da Bossa Nova frequentava as casas noturnas daquela época, e que eles “beberam muito da minha água”, o que é confirmado neste painel. Não só ele, mas Johnny Alf foi fonte de inspiração do movimento bossa novista. Tito e Alf cantavam também com voz baixa e romântica, muito antes de João Gilberto, que foi posteriormente creditado de ter introduzido este estilo.

Eu fiz uma leitura integral desses painéis e não me lembro de ter visto mencionado Felix Grant, que foi um apresentador de rádio localizado em Washington. Em 1960, Grant havia se encontrado com o radialista Paulo Santos, durante a visita deste em Washington, e com quem tomou conhecimento do que estava se passando naquela época.

Em finais da década de 1950 Felix Grant conheceu a música de Luiz Bonfá e a da cantora Maysa, mas em 1960 o encontro com Paulo Santos o fez tocar João Gilberto em seu programa de rádio. Pode-se assim dizer que foi Felix Grant quem primeiro apresentou e divulgou as gravações da Bossa Nova.

 

Felix Grant foi um apresentador de rádio localizado em Washington.

 

Porém, em 1961 os Estados Unidos patrocinaram a visita de músicos americanos no programa de boa vizinhança, e isso fez com que músicos de Jazz aportassem no Rio de Janeiro, onde ficaram deslumbrados com a Bossa Nova, já completamente instaurada. O que os fez levar de volta discos e gravações em fita magnética feitas com músicos locais.

O impacto inicial da Bossa Nova nos músicos americanos em visita se deve também ao fato de que os primeiros músicos do movimento estavam improvisando arranjos, com harmonias que os americanos rapidamente assimilaram. O sincopado da Bossa Nova, associado à improvisação, foi o estopim que encantou os músicos de Jazz, aqui no Rio de Janeiro e depois lá fora.

Este raciocínio se aplica perfeitamente ao músico Charlie Byrd, que esteve aqui, trouxe o que pode em discos e gravações, e depois propôs ao saxofonista Stan Getz gravar um álbum com a música recém descoberta, o que aconteceu em Washington. O disco, com o título Jazz Samba, foi lançado no selo Verve em 1962.

A gravação Jazz Samba é considerada a primeira exposição da Bossa Nova ao público americano

Esta gravação é considerada a primeira exposição da Bossa Nova ao público americano. Ela foi feita dentro da igreja All Souls Unitarian Church, em fevereiro de 1962. Um projeto recente, com o nome de “Jazz Samba Project”, fez com que seus participantes voltassem àquele recinto, para gravar um disco novo.

Esse projeto teve participação ativa da cantora canadense Lynn Véronneaux, que criou um quarteto com o seu sobrenome. Um painel divulgado no YouTube mostra um grupo de pessoas ligadas ao disco Jazz Samba original e à Bossa Nova, contando detalhes como tudo aconteceu:

 

 

Um aspecto interessante relatado neste vídeo é a confissão do baterista Buddy Deppenschmidt de que o conteúdo musical de Jazz Samba não guardava relação estrita com a Bossa Nova ouvida no Rio de Janeiro, mas sim, diz ele, uma “interpretação” do novo estilo.

E de fato é na batida dos bateristas que isto fica mais evidente, motivo pelo qual os músicos de jazz vieram aprender com seus colegas de instrumento, como Milton Banana, Édison Machado, e outros, que já haviam estabelecido a batida sincopada usada posteriormente.

Somente o tempo corrigiu esta falha, mas de qualquer forma o sincronismo entre a Bossa Nova e o Jazz já tinha acontecido. Até aquele momento, gravações de Bossa Nova autêntica por músicos americanos eram feitas nos estúdios do Rio de Janeiro:

 

 

Muitos acham que foi Getz/Gilberto a gravação mais importante desta fase, mas ela é um reflexo da chegada de músicos brasileiros nos Estados Unidos, a partir de 1962.

Um músico a meu ver pouco citado pelos historiadores foi o saxofonista Paul Winter, que também esteve aqui no início dos anos 60. Em 1962, o seu sexteto, misturado com músicos locais, gravou “Jazz Meets The Bossa Nova”. Isto iria se repetir em 1964 com o disco “Rio”, e novamente em 1965 com “The Sound Of Ipanema”, com a participação de Carlos Lyra.

Alguns anos atrás, eu tive um contato com o músico Bebeto (Adalberto Castilho), participante do lendário Tamba Trio, e ele me confirmou que estava lá naquelas gravações.

 

Erros de interpretação da história da Bossa Nova

A ausência constante de resgate histórico neste país leva as pessoas a não se informarem corretamente. É preciso pesquisar em mais de uma fonte, quando as informações são controversas, e só depois formar uma opinião a respeito, mesmo que ela tenha que sofrer revisões posteriormente!

Para começar, a palavra “bossa” se refere ao “jeito” diferente de alguém fazer alguma coisa e, portanto, a expressão “Bossa Nova” diz claramente que havia um novo jeito de tocar, neste caso uma modificação do samba tradicional.

Outro equívoco é que a Bossa Nova está associada ao Cool Jazz, implicando neste raciocínio que sem o Jazz a Bossa Nova não teria existido. Na verdade, as raízes da Bossa Nova estão no chamado Samba Canção, uma versão dolente do samba tradicional.

Além disso, segundo os teóricos, o samba tem um compasso binário e o jazz quaternário. O jornalista Sergio Porto dizia que não é possível confundir um com o outro, e ele tinha razão.

O movimento bossa novista deixa para trás as lamúrias do Samba Canção, para mostrar as belezas naturais da cidade do Rio de Janeiro, junto com a poesia e o lirismo das novas harmonias, que compunham as primeiras composições do gênero.

Se alguém se propõe a citar influências per se vai ter que acrescentar música clássica também, Chopin (Tom Jobim) e Débussy.

Em “Chega de Saudade” é possível perceber que a letra não se refere literalmente à progressão do Samba para a Bossa Nova, mas o título da música diz a quem ouve que não é mais possível “viver no passado”, não porque ele seja ruim, mas porque a juventude da época queria ver, e de fato viu, uma luz no fim do túnel, espelhada na alegria de viver, ao contemplar a natureza carioca.

De fato, o Rio de Janeiro da década de 1950 era um deslumbre, só quem sabe é quem viveu aquele momento. Uma grande parte das letras do início da Bossa Nova mostra a visão contemplativa da beleza da natureza carioca repetidas vezes!

Portanto, é uma bobagem associar Juscelino ou o pós-guerra a este postura dos novos músicos formadores do movimento bossa novista daquela época. O que inspirava todos eles (e a nós também) era o meio ambiente vivido pelo carioca.

Entre o Jazz e a Bossa Nova existem similaridades claríssimas:

1 – Ambos os estilos de música admitem a criatividade na modificação da harmonia, a composição em tempo real, ainda interpretando uma dada melodia, e a livre improvisação em torno do tema da música.

2 – Tanto o Jazz quanto a Bossa Nova foram esquecidos nos seus países de origem, com o correr do tempo, e em ambos os casos houve migração de músicos para continentes diversos, inclusive por questão de sobrevivência. No caso americano, músicos influentes viveram na Europa, e no caso brasileiro, Europa e Estados Unidos.

3 – O Jazz sofreu mudanças ao longo do tempo, enquanto que a Bossa Nova assume, desde o seu início, mudanças de compasso, ora mais lento e romântico, ora mais rápido e festivo.

4 – É fato notório que a Bossa Nova teve precursores e o Jazz também, o que não impediu que mudanças fossem feitas.

5 – Jazz e Bossa Nova admitem a fusão com estilos de música diversos, além da simples fusão “Jazz Samba”.

Em última análise as evoluções da música jazzística e da própria Bossa Nova encontraram respaldo na juventude de músicos e ouvintes, em décadas onde as mudanças aconteceram. Não fosse assim, seriam apenas movimentos passageiros.

Claramente, se não houve seguimento ao longo do tempo, de algum tipo de evolução do que fora anteriormente feito no final da década de 1950 e início de 1960, também não deixou de existir o assentamento em definitivo do que foi feito naquela época, tornando assim o Samba Jazz e a Bossa Nova tipos de música que estão aí para ficar, não só nas nossas lembranças, mas, me atrevo a dizer, como contribuição ao patrimônio musical da humanidade.

Outrolado_

 

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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