Cannes contra Netflix

Cannes contra Netflix

Palma de Ouro ou distribuição em 190 países? O Festival de Cannes dará sequência em 2018 à sua briga contra os serviços de streaming, em particular o Netflix, que produz e distribui filmes independente da exibição em salas de cinema.

 

Vai acontecer este ano mais um episódio da guerra do cinema tradicional contra uma suposta ameaça imposta pelos serviços de streaming, mais declaradamente contra o Netflix, poderosa empresa com sede nos Estados Unidos e espalhada pelo mundo todo.

Eu assino e gosto do Netflix, mas como cinéfilo que frequentou décadas a fio as salas de exibição, sou compelido e obrigado a preservar o cinema tradicional, dando razão ao diretor artístico do Festival de Cannes Thierry Frémaux.

 

 

Segundo a imprensa, em 2017 a produtora da Netflix concorreu à palma de ouro com dois filmes, a saber “Okja” (4K, HDR, Dolby Atmos) e “The Meyerowitz Stories”, mas sem sucesso na conquista.

Este ano estaria sendo aguardado “Roma”, filme de Alfonso Cuarón, com distribuição pelo Netflix em 2018, mas, como diz o povo, não vai rolar (ou não vai “rodar”, se quiserem, porque se trata de um filme).

A reação contra a presença do serviço de streaming no Festival veio principalmente dos exibidores franceses, provavelmente cansados de ver o cinema tradicional tripudiado por vários tipos de alternativa, como esta, que diminuem o público pagante nas salas.

A guerra é antiga, vem desde final da década de 1940, e parece continuar até os dias de hoje, visto que um serviço de streaming como o Netflix e outros se apoiam na aquisição de uma tela de TV para ser consumido.

De fato, o cinema foi dilapidado e as grandes salas desapareceram ao longo das décadas. Dá pena ver fotos com imagens destas salas em escombros, abandonadas e até invadidas por movimentos políticos que argumentam defender a população pobre.

Por outro lado, o Netflix recebeu críticas recentes como um veículo exibidor de filmes contendo o chatíssimo ator Adam Sandler, com produções de baixa qualidade artística. Recentemente o serviço se redimiu ao inserir obras de autores mais bem aceitos pela crítica, como os filmes do grupo Monty Phyton.

Em face do inevitável

Hoje em dia eu sou um que está convencido de que as grandes salas de cinema iriam sofrer de uma maneira ou de outra. Os nossos “cinemas de rua” perderam força financeira e não tiveram o amparo do poder público para continuar abertos, aliás uma das facetas lamentáveis dos governantes que pensam mais em si do que no povo ou na cultura, esta última que serve apenas de fachada quando lhes convém.

Por mais traumático que seja, o fechamento dos cinemas iria acontecer por conta da crescente violência urbana, por conta da enxurrada de programas das emissoras de TV ou até mesmo por conta da baixa qualidade artística dos filmes produzidos hoje em dia.

Neste sentido, o protesto dos exibidores franceses é uma gota d’água no oceano! Quase nada tem sido feito para preservar a qualidade do cinema, e não falo somente do cinema de autor ou filmes de arte, mas sim das produções em geral, ou do cinema independente, com pouco ou nenhum espaço de exibição.

Não sei dimensionar a repercussão dessa briga atual Cannes versus Netflix. Talvez o serviço em tela (sem trocadilho) foi um alvo especificamente publicado, por ter invadido na área de produções próprias, que não são dirigidas a nenhuma sala de cinema.

Talvez se o Netflix mudasse de postura, exibindo primeiro nas salas comercialmente estabelecidas, a briga não tivesse acontecido.

Seja como for, os desdobramentos desta disputa são imprevisíveis. Pensando exclusivamente na liberdade comercial e de expressão esta banimento seria injusto, mas o mundo está e continuará sendo repleto de injustiças. O Festival de Cannes não é obrigado a se render ao poder financeiro e é bom que não o faça. Para tal, de ambos os lados o jogo tem que ser ético e limpo, mas isso nós só vamos ver depois!

 

Outrolado_

 

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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