Aquisição de conhecimento - My Fair Lady

O segredo dos avanços está na aquisição de conhecimento

A aquisição de conhecimento é o grande diferencial que distingue as pessoas e as nações. O filme My Fair Lady explica isso muito bem.

 

Quem enfrentou como eu as dificuldades de transpor barreiras antes consideradas inexpugnáveis, saindo de uma vida de estudante sem qualquer formação profissional específica para ser professor e cientista, sabe como é importante adquirir conhecimento, antes de qualquer outra coisa.

No filme My Fair Lady, onde um professor vaidoso se gaba de poder transformar uma mulher da sarjeta em uma dama, existe uma cena, a mais didática e contundente que eu já assisti.

O Professor Higgins diz a Eliza do porque de ela ser educada e no final deste breve mas brilhante discurso ele diz a ela “e conquistar você irá”.

Ali, o educador se despe de suas vaidades transformadoras para inserir na mente do educado de que com esforço ele ou ela atingem qualquer coisa!

Pois eu, quando comecei o meu trabalho para o qual não estava preparado, fui orientado por um ex Professor Catedrático (tornado com a reforma em Professor Titular), que era um dos maiores bioquímicos que eu conhecia. Logo nos meus primeiros dias no laboratório, iniciamos um projeto sobre efeito fotodinâmico, e o meu chefe chega cedo no departamento, me vê no corredor e me chama “Vamos à biblioteca”. Lá, ele me ensinou como fazer pesquisa bibliográfica, que é o início de qualquer projeto.

Examinando a literatura pode-se apreciar até onde o assunto estudado progrediu nos laboratórios do mundo todo. Mais do que isso, nos permite ver os diversos pontos de vista e as discussões sobre resultados obtidos, que idealmente nos impediriam de cometer erros nas nossas experimentações.

Esse meu chefe não tinha boa reputação como cientista aos olhos de alguns, por inveja ou despeito, não sei, e lá no Instituto de Química eu ouvi palavras de “aconselhamento” para me afastar dele na construção da minha tese de mestrado. Seus inimigos diziam que com ele orientando ninguém terminava a tese.

Na época, eu achei este comentário irrelevante, e por um motivo muito simples: quem faz a tese é o estudante e não o orientador, e se for o contrário (e eu já vi dezenas de casos deste tipo) o futuro mestre ou doutor não consegue se formar como devia, ou seja, sai tão ignorante como começou!

E eu então fui à luta. E neste longo e árduo caminho enfrentei olhares condescendentes, de colegas que apesar da experiência, não conseguiriam me provar o domínio dos seus campos de trabalho. Mas eu nunca disse nada, porque, como todo pesquisador honesto sabe, a aquisição de conhecimento NUNCA termina, e chega-se a um ponto onde se percebe que as condições ideais do saber não serão alcançadas. Ou seja, é uma eterna luta para conquistar espaço, e que vai durar até o dia em que se parar de lutar, ou talvez nunca!

O resultado do meu esforço, bem como de outros colegas que se enveredaram no mesmo caminho, se refletiu na elaboração de um manuscrito no qual a banca examinadora não conseguia achar onde procurar defeitos importantes, e não teve alternativa a não ser aprovar a tese por unanimidade. O meu desprestigiado chefe, me acompanhando neste esforço e notando o grau de complexidade disposta nas páginas que eu escrevi me recomendou não refutar nenhuma crítica durante o exame, que foi o que fiz.

A defesa foi precedida, como é de hábito, por pessoas interessadas em ler o manuscrito e examinar o conteúdo, e aconteceu que um editor-chefe de uma revista inglesa esteve por lá e rapidamente me mandou um recado para fazer um resumo em inglês e enviar a ele. Fui pré-aprovado para publicação antes de a defesa de tese ser feita.

Foi preciso “mutar” de aluno indisciplinado para professor interessado em aprender para só então me dar conta de que maus professores não contam o que sabem ou não sabem mesmo, e assim enrolam seus alunos. Eu fiz de tudo para não ser nenhum dos dois tipos, e os meus alunos percebiam!

O ponto da virada é uma etapa importante na vida de qualquer um, e é preciso acreditar que quanto mais ignorante se é mais esforço precisará ser gasto para vencer a ignorância.

No laboratório alguns alunos olhavam para mim como se eu fosse um poço de conhecimento (quem me dera…), então eu disse a eles que durante anos a fio o que eu mais queria era jogar bola onde fosse possível, rua, colégio, etc. Eles acharam que eu estava brincando com eles. Do secundário ao término da faculdade eu normalmente detestava assistir aula, com exceção de algum assunto de interesse. Por pura ironia curricular, muito do que me foi ensinado na faculdade não me ajudou na minha área profissional, e uma parte do que teria ajudado foi muito mal lecionada, me obrigando tempos depois em ser autodidata e/ou procurar ajuda com alguém que conhecesse o assunto que eu precisava aprender.

Os anos passam e a conclusão é inevitável: sem educação adequada nenhum país irá para frente! Sem educação ou background as pessoas não pensam, são facilmente manipuláveis, são vítimas do discurso mentiroso dos oportunistas, e os políticos populistas estão aí que não me deixam mentir.

Exemplos de países que saíram do buraco para a completa autonomia

O conhecimento tira as pessoas da ignorância, e também, como disse o Higgins de My Fair Lady, distingue uma classe de outra classe. Mais importante, porém, a aquisição do conhecimento é a única ferramenta que consegue tirar países de um estado quase primitivo para um país com tecnologia avançada.

Não foi para mim surpresa ver centenas de alunos de pós-graduação de países asiáticos e até do continente europeu se inscreverem nas universidades britânicas, na busca desta aquisição. Eu tive a chance de conversar com vários deles, de diferentes áreas inclusive, e até aprender um pouco da cultura de cada um.

Profissionais que buscam na Europa campos de estudo para as suas especialidades os encontram em universidades milenares, ambientes nos quais, ao contrário do Brasil, o trabalho de pesquisa tem precedência sobre a política, e de onde são geradas toneladas de trabalhos com a participação de estudantes locais e estrangeiros.

Foi exatamente assim que Cingapura (ou Singapura, se quiserem, como era chamada antigamente) se tornou um dos maiores centros produtores de tecnologia no mundo. Tudo começa quando a administração pública resolve informatizar o país. E para tal precisava formar pessoal, mas como? Mandando estudantes para fora e depois os reaproveitando da melhor forma possível.

Em pouco tempo Cingapura se transformou. E no seu rastro foram Taiwan, Coreia do Sul, Hong Kong, o resto da Malásia e mais recentemente a China. Existem regimes políticos tortos nestas regiões, mas nada impediu o curso da conquista do saber.

Esses chamados “tigres asiáticos” espalharam produtos de alta tecnologia no mundo todo. Durante longo período de tempo se montou computador em casa com componentes fabricados na Malásia ou em Taiwan. Hoje em dia, compra-se um celular ou tablet, por exemplo, e lê-se que foi fabricado na China.

A evolução da pesquisa bibliográfica

Historicamente, bibliotecas eram raras e os livros presos com correntes, de tal forma que se tornava impossível levar qualquer livro para fora daqueles recintos.

No filme “O Nome Da Rosa”, baseado no livro homônimo de Umberto Eco, mostra-se a reclusão monastérica do conhecimento humano, onde uma biblioteca secreta era de acesso somente a alguns padres privilegiados.

 

 

Muito do avanço científico veio de lugares como este. Gregor Mendel, por exemplo, o conhecido “pai da genética”, era um Monge Agostiniano.

Como no caso de Mendel, famílias pobres faziam força para mandar seus filhos estudarem em seminários ou monastérios, e lá eles tinham acesso à cultura escrita, pedra angular do avanço da ciência. Este ingresso não criou barreiras religiosas. Eu por acaso tive um professor muito inteligente no secundário, depois amigo, que era de uma família de judeus, foi estudar em um seminário católico e quase virou padre!

Os livro impressos na prensa e a sua duplicação para o acesso de muitos alavancaram com força a disseminação do conhecimento. O que antes ficava retido com correntes passou a ser divulgado na forma impressa. É possível que muita coisa se perdeu, mas o tempo corrigiu isso em proporção razoável.

As minhas pesquisas bibliográficas do inicio da vida científica foram todas em livros. O Index Medicus era um compêndio contendo as publicações da área médica, com as referências dispostas em ordem alfabética. Cada coletânea de referências sobre periódicos em publicações biomédicas eram contidas em grossos volumes mensais.

A pesquisa nos antigos livros do Index Medicus que eu fiz eram penosas, mas obrigatórias antes de qualquer projeto de pesquisa no laboratório. Era preciso coletar referências procurando-as como em um catálogo telefônico, depois anotar com caneta em uma folha de papel as de interesse, e a seguir procurar a revista e tirar uma cópia. A nossa biblioteca era bem abastecida naquela época, mas foi no Instituto Oswaldo Cruz (Manguinhos) onde se conseguia o maior número de separatas.

Infelizmente, eu vi várias vezes artigos cujas páginas eram arrancadas das revistas científicas, em uma demonstração clara de ocultação de textos para o acesso de outros pesquisadores!

Para cada ano somavam-se os 12 livros do Index Medicus, e a gente esperava não faltar nenhum. Quando, na década de 1990, saíram os primeiros discos do formato CD-ROM, cada um deles com um ano de referências catalogadas, nós achamos que era um verdadeiro milagre. Eu estava estudando em Cardiff naquele momento.

A senhora da biblioteca nos cedia um CD-ROM de um determinado ano, levava-se o disco ao computador local e o programa gerenciador, rodando em MS-DOS, pesquisava o assunto rapidamente. Na ausência da impressora os artigos pesquisados eram exportados no formato de texto e gravados em um disco flexível. Eu então escrevi um programa em linguagem dBase IV, levava o disco para casa e compilava o que havia sido pesquisado.

O meu programinha ainda comparava referências, para saber se uma delas já havia sido achada anteriormente e eliminava a duplicata com o meu consentimento. Ainda com este programa eu consegui exportar todas as referências usadas no manuscrito da tese, cujo processador de texto usado facilmente colocava em ordem alfabética, que era obrigatória.

Um dos mais atraentes recursos daquele programa que vinha junto com os CD-ROMs era a associação com a rede de computadores Janet, que interligava todas as universidades e bibliotecas britânicas. E com isso era possível saber em que bibliotecas se poderiam achar as referências pesquisadas, e se fosse o caso pedir à bibliotecária que encomendasse uma cópia.

A evolução pelos bancos de dados conectados por redes de computadores

Para quem passou anos fazendo tudo com livros e anotando o resultado com papel e caneta, o sistema de referências em CD-ROM era um salto quântico na iniciação de um trabalho de pesquisa!

Porém, os anos se passaram e as antigas e preciosas pesquisas em CD-ROM cederam lugar aos generosos bancos de dados na Internet. Os trabalhos publicados e digitalizados passaram a estarem disponíveis no ubíquo formato PDF.

A Internet foi o veículo catalisador da pesquisa de informações e com os bancos de dados de referência científica não poderia ser diferente. Antes de se tornar comercial, a rede mundial ligou universidades e centros de pesquisa, e muito da utilidade do correio eletrônico fez a ponte que anteriormente só era possível através da bibliotecária local.

Aqueles que previram que os computadores iriam revolucionar a pesquisa, incluindo a bibliográfica, estavam certíssimos. Tanto dentro como fora dos laboratórios o uso de microcomputadores fez análises e testes renderem tempo e principalmente ajudando a se conseguir resultados com alto grau de confiabilidade. A integração em rede torna este trabalho mais eclético ainda. Não foi por outro motivo que a antiga UWCC (depois Cardiff University) cabeou o campus todo. E quando eu cheguei de volta ao Brasil eu insisti com o diretor do Hospital Universitário que fizesse o mesmo.

Não existe cultura inútil!

Se me fosse permitido aconselhar os leitores deste texto eu diria que nunca se intimidem na hora de se adquirir conhecimento, e nunca o façam baseados em uma só fonte de informação.

A leitura ou a visualização de filmes documentários ou educativos deve ser analisada com reservas, porque cada uma delas representa o ponto de vista de um só ângulo! A vida nos ensina que o mesmo assunto, quando visto sob ângulos diferentes, nos mostra detalhes dos quais até então não se havia dado conta.

E é o somatório das opiniões, aliado ao raciocínio do que se está lendo ou informado, que irá ajudar a fazer um julgamento equilibrado do que se pretende aprender.

Se pudesse ir mais adiante com o leitor, eu diria para nunca deixar de aprender com os erros. Errar faz parte da vida. Aprender com os erros é importante para se evoluir. Ao errar deve-se procurar uma solução que conserte tudo, se for possível.

O leitor deve ter em mente que é preciso manter a cabeça aberta, de modo a aprender com os erros. Este aprendizado vem com o tempo e com a experiência de vida. A chamada “maturidade” nada mais é do que a adaptação do indivíduo às situações adversas, e esse processo nunca de fato termina.

Mas a análise do erro nos ajuda a achar respostas mais facilmente, ou de forma menos árdua. E não se preocupem, haverá tempo para se aprender alguma coisa a mais. O pior que pode acontecer com qualquer ser humano é se abstrair da realidade e renunciar à aquisição do conhecimento!

Outrolado_

 

 

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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