A censura

Quando a censura não tem censura

O recente episódio da campanha contra o Netflix para deixar de exibir o seriado O Mecanismo, criado por José Padilha, mostra o lado anacrônico de uma força política que parece que não quer que o país mude. Já bastam os acontecimentos onde a censura destruiu obras nos veículos de comunicação.

 

Censura nem sempre é sinônimo de coisa ruim. Ao escrever códigos de um programa, por exemplo, várias rotinas são previstas para funcionar como censura de algum tipo. Se não for assim, o programa não tem controle sobre o algoritmo pretendido, e vai acabar dando algum erro de execução.

Freud descreveu o “super ego” como a censura retida na cabeça das pessoas como fruto da disciplina paterna. E ela não é exercida pela necessidade de se reprimir ninguém, porque pais e mães podem ensinar dando exemplo do que é certo ou errado.

As bases do livro “Liberdade Sem Excesso”, escrito por Alexander Neill, em sequência à sua mais badalada obra “Liberdade Sem Medo”, consistiram em uma retificação que se fazia necessária, compreendendo um apanhado de limites que a boa educação deveria impor aos filhos. Jovens adultos que não aprendem a respeitar estes limites se tornarão pessoas sem tato no tratamento com terceiros.

Liberdade de expressão e de escolha são princípios pelos quais o ser humano precisa ter consciência e preservar. A Igreja Católica prevê a liberdade de escolha, classificada como “Livre Arbítrio”, que é a preservação do direito de qualquer um escolher as opções que são melhores para si.

A sociedade ideal, talvez utópica até os dias de hoje, é aquela na qual as liberdades de expressão e de escolha sejam respeitadas por todos, principalmente por aqueles que não aceitam ou concordam com o que é dito.

A história nos mostra que regimes ou ideais políticos radicais excluem o livre arbítrio e as oposições ao regime são esmagadas de diversas formas, incluindo tortura e assassinato. Quem teve a chance em tempos recentes de viver em algum país que respeita estes princípios poderá comprovar na prática o que estou afirmando. A Europa, depois de passar por duas guerras que destruíram vidas, evoluiu para regimes que não toleram mais políticas radicais.

A falta de liberdade em um regime autoritário

A minha vida de estudante universitário parou academicamente durante algum tempo, indo do primeiro ao segundo ano da faculdade, por onde gravitavam estudantes filiados ou simpatizantes do antigo Partido Comunista, que foi banido pela ditadura militar.

Por causa disso, eu convivi com estudantes que decidiram abraçar com convicção os credos da esquerda mais radical que eu já vi. E que usavam todos os artifícios para professar o que queriam sem se expor aos policiais infiltrados nas turmas, que ninguém sabia quem eram.

A esquerda que eu conheci era dividida. Os mais próximos a mim aconselhavam que eu não me aproximasse dos outros, chamados por eles de “reformistas”, ou seja, “aqueles que querem transformar o sistema por dentro” ou algo parecido.

Na época, eu era jovem demais para entender a complexidade desta divisão ideológica. Aliás, uma das principais características daquela esquerda era a total falta de confiança em quem estava do lado, independente de ser simpatizante ou não. E era fácil perceber isso. A minha sorte na época é que eu não pertencia a partido político nenhum. Segundo um colega de turma que foi preso o meu nome circulou pelos corredores e celas da repressão. Com o fim do segundo ano, eu larguei tudo e fui trabalhar. Trabalho e estudo amadurecem qualquer um, ainda mais quando se sobrevive com pouca renda.

A censura no cinema

Durante a ditadura um monte de filmes eram censurados, até por motivos banais, enquanto outros muito mais “subversivos” passavam livremente nos cinemas. M*A*S*H, obra de Robert Altman, foi um exemplo que nos mostrou que os censores da época não perceberam o que estava no conteúdo. O então ministro Jarbas Passarinho declarou que este era um dos filmes mais subversivos que ele havia visto, mas a censura não cortou um fotograma sequer.

Historicamente, países que praticaram a democracia capitalista também exerceram censura a filmes, mas por motivos nem sempre políticos. Nos Estados Unidos, por exemplo, o código Hays começou a atuar como censura moralista desde a década de 1930, e mais ou menos na mesma época o Comitê de Atividades Antimericanas exerceu forte censura política, contando com a colaboração de donos de estúdio, atores e técnicos que tinham convicção anticomunista.

Na Grã Bretanha, o British Board of Film Classification exerceu forte pressão em cima da indústria cinematográfica local e na de outros países. Casos esdrúxulos aconteceram, como por exemplo, o filme da Warner “O Exorcista”, lançado na década de 1970, só foi submetido à censura no final da década de 1990, com receio aparente de ser banido.

Em outro caso muito doido, Stanley Kubrick havia acabado de lançar “A Laranja Mecânica” e o filme despertou críticas severas de quem o havia assistido e o cineasta acusado de incitar a violência. Kubrick se aborreceu e retirou o filme das prateleiras, e este só foi liberado para venda ao público anos depois do seu falecimento em 1999.

No Brasil, A Laranja Mecânica também foi censurado pela polícia, mas com a inserção de bolas pretas nas genitálias dos protagonistas de uma cena de orgia. Como a cena roda acelerada na tela, as bolas pretas pulavam de um lado para o outro, fazendo a plateia cair na gargalhada.

Estragos foram feitos com os cortes e proibições estabelecidas pela Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), órgão da Polícia Federal. A censura era exercida em todos os níveis, como mostra esta montagem de certificados achadas na Internet:

 

O DCDP já existia antes do regime militar, mas se limitava a classificar os filmes por idade. Os certificados eram religiosamente exibidos antes da projeção de qualquer tipo de filme, seja 16, 35 ou 70 mm. O papel de censura política do DCDP coincidiu com a repressão contra a esquerda, implantada pelos militares da linha dura.

Mas, independente da repressão, filmes bastante mais “subversivos” passavam incólumes pelo crivo da tesoura, e eu até hoje não sei por que motivo. Enquanto que outros, que não tinham absolutamente nenhum conteúdo explícito, como A Classe Operária Vai Ao Paraíso, foram objeto de proibição dias depois das primeiras exibições. O cinema Paissandu aqui do Rio de Janeiro exibiu o filme durante várias madrugadas, até que a polícia retirasse a cópia da cabine.

Lições de vida!

Olhando hoje aquela época do movimento estudantil em retrospectiva, eu noto que a passei com um enorme aprendizado sobre o comportamento humano, e que me ajudou como educador nos anos seguintes. E hoje eu sou o primeiro a lamentar que educadores venham usando a universidade pública para atingir objetivos políticos, e não como veículo importante de formação de profissionais.

A esquerda que eu vivi naquela época era idealista, sob certos aspectos ingênua, mas a de hoje parou antes da queda do muro de Berlim. Anos se passaram e o Brasil como um todo não aprendeu lições tiradas de um regime de exceção que ficou mais de vinte anos no poder, e não conseguiu aprender a praticar a democracia dentro do chamado estado de direito.

E infelizmente, uma parte da esquerda continua com a mesma ladainha anacrônica, que mais parece tirada de um livro de receitas escrito pelos comunistas do final do século 19.

Quando a censura só interessa quando convém

O episódio recente da tentativa de banimento do seriado Netflix “O Mecanismo”, criado pelo cineasta José Padilha, espelha muito bem o anacronismo da esquerda que parou no tempo e no espaço.

O movimento contra o seriado claramente tenta exercer uma censura porque a obra de Padilha e seus associados expõe os podres dos bastidores de uma política até então considerada por eles imaculada!

O irônico disso é que ninguém, que eu me lembre, reclamou quando “Lula, O Filho do Brasil” foi lançado nos cinemas e ainda se vê pela TV paga. Se a gente comparar as respectivas produções, vai notar que uma delas (Netflix) é restrita aos assinantes, e é realizada com produção independente!

A campanha para as pessoas pararem de assinar o serviço do Netflix como um todo prova inequivocamente que esta parte da esquerda não só não evoluiu, como se comporta e se dirige às pessoas com pressupostos de que todos nós somos ingênuos, e no caso desta tentativa de expurgo de uma obra que independeu dos cofres públicos, o pseudo paternalismo consiste em uma proposta pueril e sem qualquer cabimento, das pessoas cancelarem as suas assinaturas.

Eu sei que não posso e não devo falar por ninguém. Mas, eu posso falar por mim mesmo: no que me concerne, eu sou livre, assim como todos os que eu conheço, para exercer o meu direito de escolher o que eu quero assistir na minha casa, ou assinar os serviços de streaming que me interessam.

Cabe a mim, exclusivamente, gostar ou não de um seriado como O Mecanismo. Ou concordar com o que está sendo exposto.

Na época da ditadura, eu fui cineclubista durante todo o primeiro ano da faculdade. Nenhum dos meus mais radicais colegas de esquerda exerceu censura sobre a programação que eu fazia. Em uma daquelas semanas, eu programei a projeção de dois rolos de festival Tom & Jerry. Um dos colegas que depois eu soube morreu na guerrilha, achou a ideia ótima! E por que não? A expressão de um cineasta pode ou não concordar com credos e ideologias, enquanto que diversas obras se propõem a ser uma maneira das pessoas se entreterem e esquecerem a vida, nem que seja por alguns momentos.

A censura devia ser contra a corrupção

Hoje em dia eu quando converso com alguém que ainda consegue, por motivos que eu desconheço, confiar em discursos políticos, eu noto que as descobertas sobre a corrupção, feitas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, incomodam ou causam um certo constrangimento.

Nunca neste país”, parafraseando aquele gênio da política populista brasileira, se roubou tanto, e com uma desfaçatez que deixaria qualquer pessoa honesta com o rosto rubro.

O preocupante, nesses casos já divulgados, é que a inundação de notícias diárias sobre casos de roubo, desvio de dinheiro público e outras gracinhas, acabam por banalizar o impacto do que deveria ser revoltante aos olhos da nação.

A cada dia que passa, e a cada denúncia que aparece, eu vejo com profundo pessimismo a chamada “luz no fim do túnel”. A sensação é de desconforto, diante de um cenário onde parece que estamos na frente de uma novela que nunca termina.

É frustrante saber que, depois de mais de trinta anos formando profissionais da área da saúde, a assistência médica e social na cidade onde eu vivo é uma calamidade pública, por causa da corrupção no trato com o erário criado por impostos escorchantes!

Sinceramente, eu hoje não sei se ainda vou estar vivo quando e se toda esta bagunça for consertada. Eu tenho sim uma esperança de que o brasileiro nunca irá aceitar a implantação de um regime radical outra vez, seja lá de que credo for!

É duro ter consciência de que 46 anos foram decorridos desde quando eu passei pelo movimento estudantil, e eu continuo a não ver o país ir para frente, ao mesmo tempo em que observo a manutenção de uma consciência política torta, cega e insensível, que mais parece ter sido clonada para ser repetida por anos a fio, sem nenhuma reflexão a respeito.

Parece que de nada adiantou aprendermos a viver com liberdade. Se isto não é fruto da falta de educação e cultura, eu não sei mais o que é!

 

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Winston Churchill e a Segunda Guerra Mundial de volta nas telas

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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