Enquanto as telas de TV aumentam cada vez mais a luminosidade, nas telas dos cinemas acontece o contrário. Muitas vezes pagamos para assistir um filme que poderia ser melhor apreciado dentro de casa

Luz demais de um lado, luz de menos do outro

Enquanto as telas de TV aumentam cada vez mais a luminosidade, nas telas dos cinemas acontece o contrário. Muitas vezes pagamos para assistir um filme que poderia ser melhor apreciado dentro de casa.

 

Nos últimos dois anos ou mais, os fabricantes de TV decidiram apostar em uma maior faixa de transmissão de luz e passaram a adotar o HDR (High Dynamic Range) como novo paradigma de qualidade de imagem. Uma tela deste tipo consegue emitir mais de 800 nits e com isso exibir detalhes nunca antes vistos, além de cores mais vivas e mais próximas da captura original da imagem exibida.

Em movimento oposto, os exibidores cinematográficos conseguem a proeza de fazer o contrário. Assim, ao entrar em uma sala de cinema pela última vez, o que eu vi foi uma imagem escura e sem cor!

Para o cinéfilo ou mesmo para o entusiasta de home theater, tal fato é profundamente constrangedor, porque destrói por completo o prazer de assistir um filme. E em se tratando de gente da minha idade, terminando por produzir uma sonolência insuportável!

O problema não é de hoje

Infelizmente, longe estão os dias onde os projetores profissionais de 35 mm instalados nos cinemas usavam arco voltaico nas lanternas (compartimento da fonte de luz). A luminosidade de luz de cada lanterna era determinada pela amperagem aplicada aos bastões de carvão que queimavam lá dentro. Os cinemas de bom nível aplicavam corrente de 120 ampères nessas lanternas. Quando as películas em 70 mm começaram a ser projetadas, as lanternas eram obrigatoriamente instaladas com potência alta de iluminação.

A propósito: no Rio de Janeiro, um dos conhecidos importadores de carvão para lanternas com arco voltaico foi o empresário Cesário Felfeli, distribuidor da marca “Lorraine” e dono do extinto (e ainda preservado como igreja) Cine Comodoro.

carvão para lanternas com arco voltaico

Eventualmente, o eletródio de carvão e o arco voltaico foram substituídos por modernas lâmpadas Xenon, inclusive nos projetores para 70 mm.

 

lâmpadas Xenon para projetores, inclusive 70 mm

Na época do carvão os exibidores recorriam a diversos artifícios para economizar material. Uma vez começando a queimar, o bastão de carvão vai encurtando de tamanho, até chegar a um ponto que o operador precisa substituí-lo. Mas, algumas vezes o uso demasiado do carvão levava ao apagamento da tela, interrompendo a projeção.

Ao trocar os carvões por lâmpadas Xenon, a opção pela potência baixa ou insuficiente (discriminada em Watts) foi decisiva para o escurecimento da imagem nas telas dos cinemas, e por incrível que pareça o problema é ainda mais crítico nos anos de exposição de filmes pelo processo digital. Basta ver que para certos tipos de projeção digital são necessários dois projetores ao invés de um.

Efeito do decréscimo da qualidade da imagem

Para a projeção digital nos cinemas existem normas estabelecidas pela DCI (Digital Cinema Initiatives), joint-venture formada pelos principais estúdios norte-americanos.

Entre essas normas está especificado o nível de brilho da imagem projetada, de no mínimo de 14 footlamberts. O footlambert (ou foot-lambert, ou ainda pé-lambert) é uma unidade de luminância aceita pela indústria do cinema.

O problema do escurecimento da imagem pode, e provavelmente é na maioria dos casos, ser provocado pelo envelhecimento da lâmpada. Fora isso, seria o caso da instalação de lâmpadas de baixa wattagem, cujo efeito é permanente desde a sua instalação e ajuste.

O frequentador de cinema não dispõe evidentemente de meios para medir o decréscimo de luz na tela, mas não é impossível saber se a luz do projetor é insuficiente ou inadequada para as dimensões de uma determinada sala.

O primeiro sinal mais evidente da baixa luminância são as cores. Em uma tela com luminosidade correta as cores tem que ser vivas e vibrantes, e não desmaiadas (ou lavadas, se quiserem), sem relevância no contraste da imagem.

Outro ponto é o contraste propriamente dito, e esse é um aspecto que a mim me chama imediatamente a atenção, porque o ajuste do contraste em uma tela de TV é historicamente um dos pontos cruciais de ajuste de imagem.

Difícil, para quem tem hábito de fazer um mínimo de ajustes em uma tela de TV, não se dar conta de que o contraste de uma imagem projetada está fora do ajuste correto. O contraste é basicamente a diferença entre os níveis de branco e de preto. Assim, se esta diferença não for notada (os níveis de branco e preto aparentam estar achatados), o nível de contraste é inadequado.

Bastam estes dois parâmetros para se perceber visualmente se a imagem projetada está com uma luminância em um nível mais baixo do que devia, pouco importa a origem do problema.

Melhor em casa

Para mim, não há surpresa em ir assistir um determinado filme e depois adquirir a versão em Blu-Ray e imediatamente notar que se está assistindo a um outro filme. Com a diferença de que é possível ter controle no ajuste da qualidade da imagem em casa com um mínimo de recursos.

A economia ou negligência dos exibidores não é privilégio brasileiro. Há anos críticos de outros países reclamam deste e de outros problema na projeção digital. Eu mesmo tinha um amigo americano (já falecido) que era editor de uma publicação sobre cinema, que me relatava isso anos antes dos cinemas serem convertidos.

É preciso esclarecer que nenhum desses problemas tem correlação com o fato da imagem ser digital. Em tese, a imagem digital pode inclusive superar a analógica (película) no que tange à captura de luz, e pode ser submetida a tratamento HDR em etapas de pós-produção, gerando desta forma uma imagem com brilho intenso.

No frigir dos ovos, como nos dizia um amigo, cabe ao exibidor a maior parcela dos erros cometidos na projeção digital. E não há saída a não ser reclamar na gerência ou parar de ir ao cinema!

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

2 comentários sobre “Luz demais de um lado, luz de menos do outro

  1. É Paulo.. Que bom que voce voltou ao blog com toda sabedoria. Mas apenas complementando, a maioria dos cinemas na época dourada , trabalhava com 40 a 60 amperes na lanterna. (Carioca 60 Santo Afonso 40) e as projeçoes eram lindas. No Rio, os unicos cinemas que trabalhavam com 120 amperes eram os 3 Metro com suas lanternas especiais refrigeradas a agua. Depois, alem dos Metro, conheci o Opera e o super bruni 70.
    Abracos

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