A Odisseia de Sir Arthur Charles Clarke

Arthur C. Clarke propôs a hipótese de comunicação por satélite décadas antes que acontecesse. Uma espécie de Leonardo da Vinci literário da era espacial, forte proponente das viagens interplanetárias.

 

Arthur C. Clarke ficou conhecido no mundo todo com um dos criadores do filme “2001, Uma Odisseia no Espaço”, lançado em Super Cinerama 70 em alguns cinemas no ano de 1968.

Por trás do grande impacto nas telas, resultado da apresentação do filme do cineasta Stanley Kubrick, estava um homem capaz de antever, ou vislumbrar se quiserem, a evolução natural da tecnologia ao longo das décadas.

Clarke teria feito 100 anos em 16 de dezembro de 2017, mas a data não passou despercebida. Por iniciativa da entidade The Arthur C. Clarke Foundation uma série de iniciativas foram tomadas, de modo a marcar a importância desta data.

Arthur C. Clarke foi classificado como “visionário” por ter proposto a hipótese de comunicação por satélite, em 1945, décadas antes que tal acontecesse. Em consequência, as órbitas onde os satélites trafegam no espaço passaram a ser conhecidas como “órbitas de Clarke” até os dias de hoje.

Clarke foi também uma espécie de Leonardo da Vinci literário da era espacial, forte proponente das viagens interplanetárias. Começou a sua fase mais séria como escritor de ficção científica em 1946, ano da sua primeira publicação.

Ironicamente, cerca de dez anos mais tarde ele iria emigrar para o Sri Lanka, se tornando residente em Colombo, com o objetivo de realizar um sonho de explorar as profundezas do mar.

O que não lhe impediu de continuar a sonhar com o seu trabalho de escritor, cujo ápice aconteceu com o livro “2001”, mais tarde realizado em filme, cujo roteiro foi escrito em parceria com ele.

A ideia de telecomunicação por satélite vingou e se tornou um dos mais importantes avanços para a disseminação da informação em tempo real. No Brasil, a integração por satélite começou em meados de 1969, com o subsequente gerenciamento do sistema pela Embratel, cuja estação receptora foi instalada em 1967, em Tanguá, no interior do Estado do Rio de Janeiro.

Em 1969 a Embratel recebeu e retransmitiu as primeiras imagens por satélite, mostrando o lançamento da nave espacial Apollo IX, e logo depois, em 21 de julho, a presença de Neil Armstrong em solo lunar, o primeiro humano a pisar na lua. Em 1970, a Embratel repassou o sinal da primeira Copa do Mundo, realizada no México, com imagens coloridas, na época um formato que pouca gente recebeu em casa.

Trajetória

Clarke submeteu-se à uma formação acadêmica, ao ingressar no King’s College após o fim da segunda guerra mundial, período onde serviu no trabalho com radares. Formou-se em matemática e física, com distinção, tendo completado o curso em apenas dois anos.

Nunca de fato abandonou a sua paixão como escritor de obras de ficção científica. Em “2001” algumas das suas previsões mais otimistas acabaram não acontecendo como, por exemplo, as viagens interplanetárias comerciais de rotina.

O telefone com imagem até existiu (eu tive a chance de ver um em operação de teste), mas nunca foi, que eu saiba, comercializado. Na época em que o filme foi feito os computadores eram na sua maioria mainframes, e as tentativas de rede feitas experimentalmente e fora do alcance de todos nós.

Algum tempo se passou até que as primeiras tentativas seriam feitas para tornar o computador em uma peça bem menor, quando então o conceito de micro informática a nível pessoal foi criado. Em relativo pouco tempo modems analógicos tornaram possível a comunicação entre microcomputadores a distância, ou entre microcomputadores e sistemas de grande porte.

Clarke, em seus discursos, publicações ou entrevistas, sempre foi um firme advogado do avanço da ciência e principalmente da tecnologia, que ele via como elemento propulsor do avanço das comunicações e da informática.

No que tange a redes de comunicação entre computadores Clarke teve mais visão do que, por exemplo, Bill Gates, que acreditava que a Internet era moda passageira, e se mudou de opinião foi por motivos comerciais: ele havia visto o software navegador da Mozilla, ficou impressionado e mandou imediatamente seus programadores criarem o Internet Explorer, a reboque compulsório durante a instalação do Windows.

Grandes visionários sonham com o futuro e tentam realizar algo com ele. Nem sempre dão sorte: Doug Engelbart inventou o mouse, com o objetivo de facilitar a criação de uma interface gráfica na tela do computador, e nem por isso foi reconhecido, a não ser depois de passadas décadas da sua invenção.

Visionários não visam ordinariamente o lucro das patentes, com uma possível exceção ou outra. Eles aparentam estar focados na tecnologia.

Eu não conheci Arthur C. Clarke de perto, mas gostaria de tê-lo feito. Acredito, entretanto, ser um homem que nunca discriminou conhecimento. Basta ver todas as áreas onde se envolveu, independente de ser proficiente em qualquer uma delas.

Isto só já me basta para reconhecê-lo como um homem de grande valor, que a história ainda verá como aquele que criou a base e participou em um dos maiores filmes de ficção científica da história do cinema!

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Republicado do Webinsider

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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